Como as usinas fotovoltaicas estão se desenvolvendo no Brasil?

As primeiras usinas fotovoltaicas contratadas através dos leilões de 2014 e 2015  iniciaram suas operações. Com uma capacidade total 2.652,8MWac¹ , estes projetos têm ajudado a acelerar o desenvolvimento do setor no Brasil. Mas como estamos evoluindo?

Como todo setor, o segmento de geração centralizada de energia solar passa por uma natural curva de aprendizado. No primeiro leilão (6º LER/2014) de um total contratado de 889,7MWac, tivemos recentemente a descontratação de 249,7MWac, além de outros 160MWac que apresentam baixa probabilidade de entrar em operação, ou seja, mais de 45% do volume contratado apresenta baixa probabilidade de entrar em operação ou já foram descontratados.

Mas afinal, quais os principais desafios envolvidos nestes projetos?

Certamente as condições macroeconômicas impactaram na viabilização dos grandes empreendimentos. Pois, após o leilão de 2014 tivemos uma significativa apreciação do câmbio, elevação da taxa básica de juros e um ambiente de instabilidade política e econômica, afetando diretamente o CAPEX² (investimento), o custo do capital e a disponibilidade de financiamento, elementos críticos em projetos de infraestrutura de longo prazo, que é o caso das grandes usinas fotovoltaicas.

Importante destacar que a precificação da energia é um fator de grande incerteza, uma vez que se prevê um fluxo de caixa em R$, porém o CAPEX do empreendimento é fortemente afetado pela variação do câmbio. As receitas são conhecidas, mas o investimento não… elevando os riscos e tornando o project finance³  mais desafiador.

Percebe-se contudo, uma nítida evolução dos empreendimentos quando avaliamos os projetos contratados no 7º e 8º LER. Segundo dados da ANEEL, de um montante de 1.763,1MWac provenientes destes dois leilões, realizados em 2015, menos de 2% apresentam baixa probabilidade de entrar em operação.

No leilão realizado em 2014, o preço médio dos projetos contratados foi de R$215/MWh, já nos dois leilões realizados em 2015 atingiu-se um preço médio em torno de R$300, refletindo o novo patamar custos, devido elevação da taxa de câmbio.

Vale ressaltar o ganho de escala desta tecnologia durante os últimos 2 anos (2015 à 2017), possibilitando uma redução do custo dos equipamentos no mercado mundial, um nível cambial mais favorável e uma significativa redução da taxa básica de juros tornaram muitos projetos viáveis. O início da produção local dos principais componentes ajudou a elevar o índice de nacionalização dos empreendimentos, criando condições para que alguns projetos tenham acesso às linhas de financiamento dos bancos brasileiros de fomento.

O prazo para início de operação dos projetos contratados no 6º LER/2014 ocorrem em Outubro/2017, já para os do 7º LER/2015 ocorreu em Agosto/2017. Desta forma, analisando os empreendimentos contratados, verifica-se que parte significativa dos projetos estão atrasados em relação ao cronograma/prazo previamente estabelecido. Alguns em fase final de construção, mas outros ainda em fase preliminar, ou seja, precisam acelerar o processo de planejamento e construção do empreendimentos, o que envolve a contratação do EPC4  bem como a definição do fornecimento dos principais equipamentos para o empreendimento.

Diante disto, além da corrida contra o relógio dos empreendedores e investidores para iniciar o processo de construção dos Projetos em carteira, se vê também um aquecimento do Mercado de aquisições (M&A)5 de empreendimentos (SPEs)6 – vencedores nos últimos leilões – nos últimos meses. Embora as condições de mercado tenham se tornado mais favoráveis, e seja uma oportunidade importante para agregar mais escala aos empreendimentos, alguns pontos de atenção devem ser observados no momento de implementar ou adquirir novos projetos:

  • Projetos bem desenvolvidos em geral localizados em regiões de alta produtividade, com custos reduzidos de conexão à rede, além de atenderem às normas/regulamentações ambientais e fundiários.
  • PPA’s adequadamente precificadas possuem Contratos de Compra de Energia ao longo dos 20 anos de fornecimento. Assim como a garantia física, ou seja, montante médio de energia contratada deve ser compatível com o CAPEX, OPEX e Custo de Capital, o que comporá uma modelagem financeira realista, com retorno de investimento adequando ao perfil de risco do empreendimento.
  • Equipamentos principais (Módulos, inversores, tracking) representam mais de 60% do investimento. Além do preço, a escolha das tecnologias e fabricantes deve considerar os custos de operação, políticas de garantia e índices de nacionalização.
  • O EPC tem papel fundamental em um projeto de sucesso, sendo responsável pela engenharia detalhada, gestão do processo de compras e construção da usina. Este professional tem em suas mãos o controle do cronograma e orçamento da obra. Neste sentido, escolher uma empresa capaz de desenvolver contratos e garantias adequadamente estruturados são básicos para um fornecimento mais seguro.
  • Apoio de empresas especializadas na gestão, fiscalização, e engenharia, mais habituadas às normas, legislações e cultura local, são fundamentais para complementar a expertise que os grandes EPCistas trazem de outros mercados.

Diante do exposto, é compreensível a preocupação dos empreendedores em otimizar o CAPEX do empreendimento – a tecnologia mais acessível, o fornecedor mais barato, a arquitetura mais otimizada, infraestrutura simplificada, etc. No entanto, é preciso considerar que empreendimentos competitivos e rentáveis se baseiam em fluxos de caixa equilibrados. Neste sentido, os custos operacionais, sobretudo o O&M7  – operação e manutenção – têm fundamental importância e ainda um elevado grau de incerteza devido a novidade do conceito que estamos implantando.

E o que temos para os próximos anos?

Outro fator de incerteza reside na demanda de projetos para os próximos anos. Após o frustrante cancelamento do leilão de reserva de 2016, motivado pela redução da atividade econômica e a consequente queda da previsão de consumo de energia, temos a expectativa de contratação de usinas solares no LEN – Leilão de Energia Nova que ocorre no dia 18/12/2017.

Com previsão de inicio de suprimento em 01/01/21, seria fundamental para a continuidade do setor que tenhamos a contratação significava neste leilão.

Temos por enquanto em 2019 a previsão de implantação de projetos remanescentes do 8º LER/2015, mas o que é muito pouco para a manutenção sustentável da cadeia fotovoltaica, composta por dezenas de empresas com fabricação local e milhares de empregos em toda a cadeia.

[1] MWac: Potência na saída dos inversores solares em corrente alternada (ca) – corresponde à potência máxima injetada na rede de transmissão
[2] CAPEX: Capital Expenditure – Capital utilizado para a estruturação e implementação do empreendimento – Investimento Inicial
[3] Project Finance: Estruturação do Financiamento de infraestrutura com pagamentos baseados em fluxo de caixa do projeto.
[4] EPC: Engineering, Procurement & Construction – Correspondem ao processo de engenharia, fornecimento dos equipamentos e construção do empreendimento
[5] M&A: Mergers & Acquision: Fusões , aquisições, compras de empreendimentos.
[6] SPE: Sociedade de propósito Especifico: Sociedade Empresarial como um objetivo específico, neste caso Gerar Energia Elétrica.
[7] O&M: Operação e Manutenção da Usina Solar

Escrito por Marcio Takata | Diretor Geral Greener

Graduado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da USP e MBA pelo INSPER. Atua há 10 anos no setor de energia solar, nas áreas de pesquisas de mercado, análises estratégicas, desenvolvimento de empreendimento e otimização técnica/financeira para a cadeia fotovoltaica.

Mostrando 2 comentários
  • Artur Lovro
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    Parabéns pelo excelente artigo Marcio. Através da Greener e equipe, sua colaboração e expertise para ajudar a alavancar o segmento Solar PV e GD é de fundamental importância. 1 forte abraço ! Artur Lovro

  • Edlailson Pimentel
    Responder

    Parabéns! Pontual nas colocações a cerca das expectativas do mercado sobre GD e GC.

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