Empreendimentos de Locação e os Impactos da Alta do Dólar

Escute o Podcast sobre o tema:

Análise demonstra influência e impacto que a variação cambial pode trazer nos empreendimentos de locação na Geração Distribuída

 

A variação diária no preço do dólar basicamente segue a oferta e demanda do mercado em transações comerciais de importação e exportação, podendo ser afetada por superávits e déficits, taxas de juros e até o fluxo de dinheiro gasto a serem considerados no Brasil e no exterior. Uma situação de crise como a provocada pela pandemia da COVID-19 trouxe grandes incerteza e interrupções de importantes movimentações financeiras nos mercados pelo mundo, causando grande volatilidade cambial.

O dólar atingiu o seu valor recorde (até o momento em que este artigo foi escrito) de R$ 5,88. Se comparado com o valor do início de 2020, que era de R$ 4,02, podemos perceber uma variação de 46%. Mas o que o dólar pode impactar no setor de energia solar fotovoltaica?

Normalmente, mais da metade do capital necessário para investir (CAPEX) numa usina fotovoltaica de grande porte sofre com a variação do dólar. Portanto, o valor do dólar é um fator importante na hora de avaliar a viabilidade econômica destes empreendimentos. Sempre que seu valor aumenta temos um impacto negativo na viabilidade.

A análise de viabilidade é um dos primeiros passos quando se tem a intenção de desenvolver um empreendimento fotovoltaico na Geração Distribuída. Nela devem ser consideradas algumas premissas para projetar um fluxo de caixa deste empreendimento e estimar os lucros ou prejuízos ano a ano. As principais a serem consideradas são:

  • Volume de energia produzido;
  • Valor da energia gerada;
  • Custos; e
  • CAPEX.

O volume de energia que o empreendimento produz vai depender de fatores como o porte do sistema (potência), o local onde está instalado, a qualidade dos equipamentos e da instalação, dentre outros.

O valor da energia produzida servirá, juntamente com o volume, para definir a receita bruta. Ele normalmente segue o preço da tarifa de cada distribuidora de energia, que é traduzido em um contrato de locação para o consumidor final.

Dos custos operacionais podemos citar o custo de demanda contratada, o custo com operação e manutenção dos equipamentos, custos administrativos, encargos financeiros, impostos e outros custos para manter a operação do empreendimento.

E por último, o CAPEX – Capital Expenditure – que é o capital necessário para colocar o empreendimento de pé.  É exatamente nele, como citado no início, que a variação cambial tem maior seu impacto. Ele é formado pelo custo dos módulos fotovoltaicos, dos inversores, das estruturas, do desenvolvimento do projeto, dos EPCistas, custos relacionados com a conexão da usina entre outros. Dessa composição, de 50% a 70% está diretamente exposto à variação cambial. Desta forma, considerando um aumento de cerca de 45% do dólar, podemos ter o preço final subindo de 22,5% à 31,5%. Este aumento vai influenciar na viabilidade econômica.

Depois de entendido o aumento no valor do investimento, o passo seguinte é entender como isso será traduzido no resultado financeiro. Para isso, consideramos premissas para um empreendimento fictício, de modo a calcular seu retorno financeiro na condição de dólar do início do ano, R$ 4,02, e depois calculamos o retorno considerando o aumento do dólar para R$5,80.

Condições de Contorno do Empreendimento Fictício:

  • Modelo de negócio: Usinas de locação baseada em desconto na tarifa de energia
  • Modalidade de geração: Autoconsumo remoto, atendimento a cliente B3
  • Porte do empreendimento: 1,3 MWp/1MW
  • Produtividade anual: 1670 kWh/kWp
  • Local/Distribuidora: Goiás/ENEL-GO

Os resultados serão medidos através da Taxa Interna de Retorno (%) ou TIR, que é o indicador financeiro comumente usado para avaliar investimentos. Para que seja considerada atrativa, a TIR deve ser maior que a Taxa Mínima de Atratividade do investidor. Desta forma, os resultados nas duas situações foram:

Podemos perceber uma queda de cerca de 4,5 pontos percentuais na TIR. Este impacto pode fazer com que o resultado da TIR fique abaixo da TMA em algumas situações, inviabilizando o investimento. Porém, como dissemos no início, o dólar pode variar rapidamente e alterar os resultados apresentado para estas duas situações e, devido a esta condições, trouxemos uma tabela de sensibilidade do valor do dólar:

Através do gráfico, podemos perceber os resultados para cotação do dólar em valores intermediários de R$ 4,60 e R$ 5,20. Os resultados da TIR são 12,9% e 14,4%, respectivamente, que demonstram impactos menores, mas ainda significativos.

Portanto, este impacto deve ser absorvido de alguma forma para que empreendimentos como este continuem sendo desenvolvidos. Das premissas citadas no início, a única passível de uma ação para que se melhore o resultado, sem considerar o CAPEX, é a premissa de custos. Uma maior eficiência nas atividades de manutenção e otimização nos custos de operação e controle da usina podem auxiliar na redução do impacto. Além disso, também pode-se buscar as melhores condições tributárias para otimizar esta parcela dos custos.

Outro ponto de atenção é monitorar os valores de tarifa homologados pela ANEEL para as distribuidoras e os preços dos produtos no país exportador, assim como a redução no preço dos equipamentos fotovoltaicos no mercado internacional, que vem apresentando significativas reduções desde o início do ano. Estes são fatores que podem trazer uma redução no impacto a médio prazo.

Por fim, vamos encontrar viabilidade e retornos interessantes em alguns locais e distribuidoras, como já acontecia antes. Outro ponto importantíssimo a se considerar é a redução forte da taxa SELIC entre 2019 e 2020. Ela saiu de 6,40% em meados de 2019 para um valor recorde de 3,00%. Isso pode fazer com que, em muitos casos, mesmo com a redução da TIR, o empreendimento continue trazendo um resultado acima da taxa mínima de atratividade. Além disso, a queda da selic pode induzir a uma queda nos juros do mercado, melhorando as condições de financiamento para investimentos fotovoltaicos.  Para auxiliar os ouvintes do Podcast, preparamos um material complementar gratuito, que está disponível para download clicando no botão abaixo. Curta e compartilhe o Greener Talks com agentes do setor.

 

Mateus Salles

Consultor Greener

+982198225

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