Cadeia de suprimentos do setor solar – Qual estratégia seguir?

  • Este artigo tem como objetivo discutir as tendências de preço e tecnologia de módulos fotovoltaicos no mercado de energia solar do Brasil em 2021, além de lançar um panorama sobre a evolução das importações nos últimos anos. O artigo é direcionado para fabricantes, distribuidores e compradores de equipamentos fotovoltaicos e empreendedores interessados em tornar a sua gestão de aquisição mais estratégica. Os dados são apurados pelo Greendex, plataforma digital de inteligência da cadeia solar no Brasil, 100% desenvolvida pela Greener.

O crescimento do setor solar fotovoltaico trouxe ampliação da competitividade entre fornecedores de equipamentos com o expressivo aumento das possibilidades de escolha entre marcas de módulos e inversores. Desse modo, a estratégia de seleção, negociação, compra e venda é fundamental para garantir a competitividade frente à concorrência, seja qual for o elo de atuação na cadeia.

Na visão do fabricante, por exemplo, é essencial monitorar modelos e marcas que vem ganhando market-share no setor e quais são as respectivas tendências de preços e movimentação (portos de entrada). Para o agente de distribuição e logística, a diversificação do portfólio de produtos a serem comercializados pode trazer segurança no fornecimento, mas pode ser um desafio na hora de negociar melhores preços.

A estratégia está, portanto, condicionada à tomada de decisão baseada em uma análise de dados robusta e eficaz, que será apresentada neste artigo.

Entrada no mercado de novas tecnologias

A evolução do mercado de energia solar fotovoltaica, no mundo e no Brasil, é em grande parte fundamentada pela curva de aprendizado da sua indústria de componentes, equipamentos e hardware. O ganho de escala da indústria, juntamente com a promoção de fontes renováveis, mecanismos de incentivo e a otimização dos serviços, permitiram a redução do custo dos componentes que compõem as mais diversas aplicações desta fonte. Seja em gadgets, mochilas, carregadores, relógios, ou em instalações mais conhecidas como rooftops residenciais ou comerciais, condomínios, atividades rurais, grandes usinas de geração centralizada, a tecnologia evolui a ritmos surpreendentes.

São frequentes os recordes de redução de custos e preços, e ao mesmo tempo, os recordes de aumento de qualidade, eficiência e performance. Uma dessas novidades foi a entrada de módulos de alta potência, iguais ou maiores que 500 Wp, no mercado brasileiro a partir de 2020,demonstrada pela Figura 1.

Figura 1 –Monitoramento customizado da ferramenta Greendex.

(a) Apresenta o surgimento de módulos fotovoltaicos com potência igual ou maior que 500 Wp a partir de setembro de 2020;(b) Apresenta a respectiva evolução de preço FOB (Free On Board – preço no porto de embarque);(c) Volumes importados por marca e tecnologia de célula no período e por fim, (d) Portos de entrada dos equipamentos.

 

 

(a) A partir de setembro de 2020 passaram a entrar oficialmente no Brasil módulos fotovoltaicos considerados de alta potência, ou seja, igual ou maior que 500 Wp. Desde setembro de 2020 até julho de 2021, foram importados 525MWp de módulos na faixa de potência entre 500 e 680Wp. Em termos de market-share, ainda é uma parcela pequena de 7,2% se comparado ao volume total de módulos importados neste mesmo período. No entanto, confirma a tendência de que no Brasil, existem projetos para os quais a utilização de módulos de alta potência faz sentido técnica e economicamente.

(b) Ao se decidir pelo produto mais adequado, é necessário ponderar o custo-benefício de tecnologias mais avançadas em cada projeto, assim como a marca e o momento ideal de aquisição. No período avaliado (janeiro a julho de 2021), os módulos monofaciais de potência maior ou iguala 500 Wp chegaram a ter variações de preço de14%. Por exemplo, em janeiro de 2021,o Greendex registrou preço FOB médio de uma marca de0,190 US$/Wp, chegando a uma mínima de 0,186 US$/Wp, e novamente subindo para 0,217 US$/Wp no intervalo de seis meses, entre janeiro e julho. Também nesta análise evidencia-se diferenças de preço entre as marcas e fabricantes: em julho de 2021, a diferença entre os preços médios das marcas chegaram a 10%.

(c) No período selecionado e no que diz respeito à faixa de potência analisada, por meio do ranking do Greendex, há uma predominância de quatro marcas no market-share. Contudo, com o aumento gradativo do volume mensal importado, a tendência é que mais fabricantes entrem como players nos próximos meses.

(d) De acordo com o mapa, os principais lugares de entrada foram os Portos de Santos, Paranaguá e Itajaí.

Atuar no setor solar fotovoltaico significa não somente acompanhar as inovações tecnológicas, mas também compreender que a sua cadeia de suprimentos está inserida em um complexo contexto geopolítico internacional, no qual o Brasil faz parte como importante player. A complexidade deriva de múltiplos fatores que são interdependentes, como as relações comerciais entre países e regiões (imposição de impostos, sanções e taxas de importação), a concentração ou disposição geográfica de players fabricantes de matéria-prima e equipamentos (por exemplo, em áreas com a possibilidade de ocorrência de desastres naturais ou com instabilidade política e econômica) e variações cambiais. Tais fatores afetam a disponibilidade de matéria-prima e por consequência o equilíbrio da oferta e demanda e seus reflexos nos preços das commodities, insumos e equipamentos no cenário internacional.

Como será visto adiante neste artigo, o aumento de preços percebido no ano de 2021 é reflexo dessa complexidade. Para entender como isso afeta o desenvolvimento de negócio e quais as estratégias derivadas, um dos primeiros passos é ter acesso a ferramentas que façam o monitoramento dos movimentos da cadeia de suprimento para uma análise de dados aliada à tomada de decisão.

O ano de 2021 e suas tendências

Apenas no ano de 2021, de janeiro a julho, foram importados 5.373MWpde módulos fotovoltaicos. Analisando o comportamento da média dos preços de algumas das principais marcas, considerando diferentes modelos, notam-se flutuações entre janeiro e julho entre 3% a 18% e uma tendência de aumento nos preços a partir de fevereiro de 2021.

 

 

Por meio do Greendex, o usuário pode aplicar uma lupa e analisar de forma mais detalhada parâmetros e períodos específicos, além da possibilidade de escolher uma ou mais marcas de módulos fotovoltaicos dentre as 53 disponíveis no momento (podendo ser mais conforme novas marcas entrarem no mercado). Dentre os parâmetros que podem ser filtrados estão ano, quadrimestre, marca, potência, tecnologia, corte de célula, ex-tarifário e selecionar entre módulo monofacial / bifacial. As informações são atualizadas mensalmente* e é possível acessar o histórico desde 2017, acompanhando todos os novos dados sobre as importações:

• Volume mensal de importações
• Preço FOB
• Porto de entrada
• Ranking das marcas
• Tipo de tecnologia de módulo: Policristalino, Monocristalino, Poli PERC, Mono PERC.

*Dados da Receita Federal

Aplicando então a lupa para 2021 e suas tendências, observa-se que as importações estão migrando para módulos de maior capacidade, com o maior volume importado, representando 73% do total, em módulos entre 400– 455Wp.

 

O cenário atual de alta de preços de módulos fotovoltaicos vem sendo percebida nas importações desde o início de 2021, tendo se intensificado no segundo trimestre. Apesar de algumas marcas apresentarem flutuações entre janeiro e abril, de acordo com a sinalização por meio do Greendex, a partir de março de 2021há uma trajetória mais definida de crescimento dos preços.

 

O aumento de preços em 2021

De acordo com as análises internacionais*, ao final de 2020, fabricantes de wafers e células fotovoltaicas anunciaram expansões na sua capacidade de produção, na expectativa de uma guinada na recuperação econômica mundial pós pandemia da COVID-19 e o consequente aumento na demanda global de sistemas fotovoltaicos. Tais planos de expansão, por sua vez, surtiram um efeito de aceleração dos pedidos e compras de polissilício, matéria-prima principal para a fabricação de wafers e células fotovoltaicas.

*PV Info-Link Spot Price: https://www.infolink-group.com/en/solar/spot-price

A rápida procura por este insumo gerou especulação e insegurança diante da necessidade de garantir estoques, levando ao aumento no preço do polissilício e por consequência, um efeito em cadeia nos preços de wafers, células e módulos fotovoltaicos.

Dessa forma, oque se identificou no cenário internacional foram recordes de alta nos preços do polissilício das principais regiões produtoras na China a cada semana nos meses de março, abril e maio. Essa tendência permanece mesmo havendo sinais de uma demanda mais moderada por parte dos compradores, gerando incerteza sobre a evolução dos preços para o segundo semestre de 2021.

Com o mercado migrando para módulos bifaciais e com dimensões cada vez maiores, em 2020 a indústria sentiu impactos semelhantes com relação à falta de disponibilidade e consequente elevação dos preços do vidro de grau solar. Em 2021, o preço do vidro segue uma trajetória de maior equilíbrio e queda, em meio ao controle de sua utilização pelos fabricantes de módulos, como forma de segurar o impacto dos preços.

No cenário atual, o polissilício acabou se tornando um gargalo na cadeia de suprimentos da energia solar e a perspectiva para o segundo semestre é a manutenção da tendência de elevação dos preços. Com a maior demanda, é possível que os fabricantes façam reforços em suas linhas de produção e aumentem sua capacidade de oferta. Porém, os reflexos dessas ações só deverão ser percebidos ao longo de 2022 nas negociações de preço, quando a oferta e demanda possivelmente vão se equilibrar.

Essa situação acende o alerta para a alta concentração da fabricação de insumos para o mercado solar fotovoltaico global. A China responde por 86% da capacidade global de produção de polissilício, sendo apenas a região de Xinjiang na China responsável por 42% da produção global. É por isso que fatores locais como desastres naturais (terremotos, enchentes), ocorrências nas fábricas (acidentes, manutenção, paralisação) podem mudar os rumos do mercado bruscamente. Além disso, é preciso monitorar como as relações comerciais entre países se desenvolvem, principalmente Índia, China e EUA, como por exemplo, sanções, taxações e questões domésticas políticas e econômicas, que podem afetar o fornecimento de polissilício e demais insumos, provocando turbulência nos preços.

Além do vidro e do polisilício, outros custos também aumentaram nos últimos meses, como o aço (que afeta o preço de estruturas fotovoltaico) e os valores de frete. Com altos preços upstream da cadeia de suprimentos, a pressão nos custos de produção de módulos fotovoltaicos é inevitável. O efeito é que a indústria de módulos acaba por ajustar sua demanda, segurando ou postergando pedidos. Da mesma forma, investidores e desenvolvedores de projeto adiam o início de suas obras ou chegam a cancelar novos projetos, na medida em que a previsão de aumento do CAPEX pode inviabilizar as taxas de retorno desejadas. Consequentemente, reflexos são sentidos até o consumidor final, em relação aos compromissos assumidos pelos fornecedores e instaladores de sistemas em contratos e PPAs solares.

O maior desafio ao analisar tendências no comportamento de preços é discernir entre efeitos que são de curto e longo prazo no momento de planejar e se comprometer com compras e vendas de equipamentos, kits e a instalação fotovoltaica para o cliente final.

Essa estratégia envolve ponderar entre negociação de compras de maior ou menor volume, parcerias comerciais com fornecedores, estratégia de estoque, gerenciamento de margens de lucro, precificação e demais custos, por exemplo o custo da contratação do frete internacional e enquadramento adequado no ex-tarifário, que podem ser decisivos na hora da venda.

Adicionalmente, pode ser preciso considerar o ajuste do cronograma do projeto, otimizando o timing entre a venda e as entregas de equipamentos e instalações.

Efeitos indesejáveis como a quebra de contratos entre fornecedores e compradores também podem ocorrer. Portanto, parte da estratégia também envolve o gerenciamento de riscos de flutuação de preços de forma prévia no momento da negociação contratual.

Por esse motivo, é preciso inserir a alta nos preços das commodities fotovoltaicas também no cenário de alta do custo da energia elétrica no Brasil em um período de crise hídrica. Portanto, adotar mecanismos e estratégias de renegociação de preços de PPAs assim como engajar o consumidor neste contexto podem ser necessários para garantir a sustentabilidade do projeto.

Evolução da Importação de Módulos Fotovoltaicos no Brasil 2017 – 2021

 

 

Desde 2017 até julho de 2021, foram importados 16,92 GWpde módulos fotovoltaicos no Brasil. Os anos de 2020 e 2021até o momento, respondem 60% desse volume (10GWp).

É possível fazer um paralelo da importação com o crescimento do mercado de energia solar fotovoltaica no Brasil?

Considerando a data de fechamento dos dados em 08/2021,o Brasil conta com 6,8 GW operacionais de energia solar na GD e 3,7 GW na GC, totalizando 10,5 GW de potência instalada AC, considerando os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel. Não é possível saber com exatidão, a quantidade em potência instalada DC ou “pico”. Porém, adotando um fator de overload médio teórico de 20%, estima-se que no Brasil, estariam instalados aproximadamente 12GWp de módulos fotovoltaicos. Entre os 16,9 GWp que entraram no Brasil entre 2017 e 2021 e os 10,5GWp estimados em operação, podemos inferir, por alto, que há 6,4GWp de módulos que estão em estoqueou em projetos em fase de desenvolvimento e construção. Deve-se ponderar que os dados oficiais da Aneel de instalações fotovoltaicas, principalmente em relação à GD, podem estar defasados.

Isso não quer dizer, no entanto, que o abastecimento da demanda do mercado de GD e GC no Brasil, ocorre de maneira constante. Como se pode observar nos volumes importados mensais, existem períodos de crescimento e alta, assim como períodos de volumes reduzidos. A variação ocorre por conta do comportamento da demanda do mercado interno no Brasil em equilíbrio com os preços internacionais.

Há também volumes maiores que chegam ao Brasil de forma mais pontual, cujos módulos fotovoltaicos são destinados a complexos de usinas solares de grande porte. Além disso, existem desafios logísticos e procedimentais, como problemas em unidades fabris internacionais, portos congestionados, e regularização de licenças e demais procedimentos de importação.

Durante a trajetória de crescimento do mercado, mesmo havendo uma tendência de longo prazo de queda dos preços, o mercado passa por períodos de alta e baixa nos preços, correspondendo a momentos de alta na cotação do dólar e desvalorização do real, desequilíbrio de oferta e demanda, e na falta de disponibilidade internacional de insumos.

No gráfico abaixo, extraído do Greendex, compara-se de 2017 a julho 2021, o comportamento da média de preços FOB das três marcas de módulos fotovoltaicos com maior volume importado, contemplando diferentes modelos e tipos de tecnologia. No intervalo de quatro anos, os preços médios dos módulos importados no Brasil caíram pela metade, passando de 0,4 US$/Wp a 0,2 US$/Wp. Mesmo havendo uma tendência no longo prazo de redução de preços, existem períodos de curto prazo de flutuação e descolamento dos preços entre fornecedores. Além dos desafios anteriormente mencionados em relação à oferta internacional de insumos e equipamentos, as variações de preço vinculadas à cada fabricante podem sinalizar demandas específicas para algum projeto de grande porte ou a tendência de entrada de alguma tecnologia mais avançada de módulos, com custo mais elevado.

 

Tecnologia de Célula Fotovoltaica

 

 

Quanto ao tipo de tecnologia de célula fotovoltaica, ao analisar o período completo disponível na plataforma, de 2017 a julho2021, nota-se que aproximadamente (34%) do volume importado, foram de módulos policristalinos, geralmente módulos com preços mais baixos. A outra parte divide-se entre a tecnologia PERC (50%) e módulos Monocristalinos (16%).Dentre estas, os módulos do tipo Mono Perc, que apresentam eficiências maiores, vêm ganhando maior representatividade com volumes maiores de importação. É um sinal de que o mercado está migrando para, além de módulos de potência maiores, módulos com tecnologias de células fotovoltaicas de alta eficiência.

Módulo Monofacial vs. Bifacial

Da mesma forma que foi possível analisar a entrada de módulos de alta potência (maior ou igual a 500 Wp) no Brasil, outra tendência interessante de ser observada é a entrada de módulos bifaciais, que também a partir de 2020 vem se tornando uma tecnologia cada vez mais consolidada no mercado brasileiro. No total, desde 2017, os módulos bifaciais respondem por 15,8% dos módulos que entraram no Brasil.

Fazendo o recorte para 2020, os módulos bifaciais representaram 20% dos módulos fotovoltaicos importados. Em 2021, no primeiro semestre, os módulos bifaciais já respondem por 33% do total(MWp).

 

Análise da cadeia de suprimento como parte da estratégia

Em um mercado altamente competitivo, como no caso do Brasil em geração distribuída ou centralizada, com margens de lucro bastante disputadas, cada cent deve ser cuidadosamente investido. Por isso, é fundamental analisar a cadeia de suprimentos e entender o perfil de consumo, como tendências de preferências por determinada marca ou tecnologia na hora da tomada de decisão e formulação de estratégias para os negócios.

A possibilidade de analisar dados de forma abrangente e/ou específica é interessante não só para os fabricantes e distribuidores de equipamentos, mas para demais players do setor que desejam entender como a sua estratégia de compras e vendas está alinhada com as tendências do mercado frente a tecnologias, preço, demanda e logística.

A Greener, atenta às necessidades do setor, desenvolveu em 2020 a Plataforma Greendex, cujo objetivo é munir o usuário, de forma fácil, ágil e assertiva, com dados e análises das importações de módulos e inversores para suprimento do mercado de energia solar fotovoltaica no Brasil.

Para conhecer mais sobre essa ferramenta, entre em contato com nosso time de Digital, clicando aqui.

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